Nova presidente da Comissão Nacional da Mulher Contabilista fala sobre o desafio de formar mulheres para liderar na profissão, na sociedade e na política


A pele clara, contrastando com o tom castanho escuro dos grandes e atentos olhos e dos cabelos, sempre alinhados, a fala pausada, o olhar suave e a elegância natural podem facilmente iludir o interlocutor. Esse ar que denota uma certa timidez camufla uma guerreira com múltiplas habilidades. Natural de Tangará (SC), a empresária contábil e advogada Nilva Amalia Pasetto somou às diversas atribuições à frente de sua empresa a Mitte Contabilidade e Consultoria, com sede em Curitiba; à presidência da Academia de Ciências Contábeis do Paraná (ACCPR), que exerce desde outubro de 2016; às funções no Conselho Fiscal da Administração dos Portos de Paranaguá e Antonina – APPA, que exerceu de fevereiro de 2017 a 2018 e às responsabilidades como conselheira suplente do Conselho Federal de Contabilidade (CFC), desde 1º de janeiro; a posição de presidente da Comissão Nacional da Mulher Contabilista (Comissão Nacional de Aprimoramento Técnico-Cultural da Mulher Contabilista).

Tendo iniciado a vida profissional na área contábil, sua experiência – como diretora administrativa e financeira de uma multinacional avícola; como cofundadora do Instituto Paranaense da Mulher Contabilista e da Comissão Estadual da Mulher Contabilista do Paraná, que coordenou durante vários dos anos em que atuou como conselheira do CRCPR; como empresária; e como líder no Paraná da causa de Políticas Para Mulheres Públicas do grupo apartidário Mulheres do Brasil (MdB) – a credenciou para ser indicada para liderar a Comissão Nacional da Mulher Contabilista do CFC, desde o início de outubro, com a missão de trazer as mulher contabilistas para os holofotes. Elas, que já representam mais de 43% do total de profissionais da contabilidade registrados no Brasil, e que em muitos casos já são maioria nos bancos das faculdades de Ciências Contábeis, estão ocupando cada vez mais posições de destaque como empresárias, galgando posições relevantes nas empresas, mas ainda têm uma atuação muito aquém de suas possibilidades nas entidades que representam a profissão em todo o País e, especialmente, na política.

Nesta entrevista ao CRCPR Online, Nilva detalha seus planos para dar voz à mulher, não apenas na profissão contábil, mas no cenário político e social.

CRCPR Online: Como surgiu a indicação do seu nome para coordenar a comissão?

Nilva Amalia Pasetto: Creio que a indicação se deve ao fato de que durante muitos anos coordenei a Comissão Estadual da Mulher Contabilista [do Paraná] e tive a oportunidade de organizar várias ações assertivas visando aumentar a participação da mulher do Estado nas entidades representativas da profissão e empresariais, como também em outras esferas da vida pública. Fiquei muito honrada com o convite do presidente do CFC, Zulmir Breda, e do vice-presidente de Política Institucional, Joaquim de Alencar Bezerra Filho, pois o desafio proposto é imenso, porém muito estimulante.

CRCPR Online: Qual será o direcionamento do trabalho da comissão nesta gestão?

NAP: Nossa atuação vai se concentrar em três principais vertentes: empreendedorismo, formação de lideranças e participação da mulher na política. O trabalho já começou na vertente do empreendedorismo. Este será o foco principal do XII Encontro Nacional da Mulher Contabilista, que acontecerá de 11 a 13 de setembro de 2019 em Porto de Galinhas (PE). Nesta edição, por sinal, optamos por uma maior ênfase na programação técnica, embora ainda estejamos planejando alguns eventos culturais. Além disso, estamos em contato com o SEBRAE/PR, que tem um programa muito interessante voltado para o fomento do empreendedorismo feminino, que pretendemos apresentar ao CFC em breve, como referência para futuras ações que planejamos desenvolver. Afinal, nós, mulheres, temos uma participação cada vez maior no mercado de trabalho no País. Mas somos cerca de 43% da população economicamente ativa e ocupamos apenas 39% do mercado de trabalho formal (dados do IBGE, de 2015), o que mostra que ainda temos um longo caminho a percorrer. No entanto, a luta feminina por igualdade de condições e oportunidades vem demonstrando o nosso grande poder de tomar decisões, de mudar a vida das pessoas, de alcançar objetivos. Na Contabilidade, o cenário não é muito diferente. Somos mais de 224 mil profissionais mulheres, do total de 524,5 mil, representando quase 43% da classe (outubro/18). Mas este quadro promete mudar muito em breve, pois de acordo com o Censo da Educação Superior, de 2015, naquele ano havia mais de 209 mil mulheres matriculadas em Ciências Contábeis e cerca de 149 mil homens.

Quando falamos de empreendedorismo, não estamos tratando apenas da mulher dona de uma empresa contábil. A mulher pode empreender trabalhando em uma empresa de outra pessoa, na área pública, empreender para ter uma carreira de sucesso, competindo em condições de igualdade de oportunidades com os homens, seja no aspecto de ascensão a cargos de liderança ou de salários. Dados estatísticos comprovam que atualmente, no Brasil, as mulheres já ultrapassaram os homens em tempo de escolaridade, o que indica que não se trata de um problema de falta de qualificação. Pelo contrário. Sabemos que existem mulheres extremamente qualificadas desempenhando funções muito aquém de suas capacidades. O que falta são oportunidades e autoconfiança, para as mulheres a quem elas são oferecidas. Digo isso por experiência própria, pois muitas vezes recebi convites para desempenhar certas funções, e até mesmo para concorrer a cargos políticos e me perguntei: “Meu Deus, será que eu dou conta? Será que eu realmente estou preparada?”

CRCPR Online: Mas a senhora não acha que os homens também se questionam quando estão diante de um desafio?

NAP: Sim, creio que eles também se questionam em menor intensidade, mas acho que a mulher tem mais dificuldade de aceitar críticas. Talvez porque estejamos mais na mira dessas críticas, porque sejamos mais cobradas, pelo fato de sermos mulheres, mas principalmente por sermos mais perfeccionistas. Muitas vezes observo que se um homem e uma mulher são confrontados com uma situação em que têm que preencher, digamos, cinco requisitos para um cargo, se ele preenche três, já aceita o desafio, e vai aprendendo o que precisa para preencher os demais ao longo do caminho. Já a mulher, se apresentar quatro desses requisitos, frequentemente acaba não aceitando, por medo de não corresponder às expectativas. Esse pensamento nos leva à próxima vertente em que pretendemos atuar: a formação de lideranças femininas. Acredito que só teremos uma efetiva militância das mulheres contabilistas nas entidades ligadas à profissão, em cargos de chefia nas empresas, na sociedade civil e na política quando tivermos um trabalho efetivo de formação, mostrando às mulheres o potencial que elas possuem, o caminho para inspirar outras pessoas e os meios para resistir às pressões decorrentes do aumento da exposição de nossas vidas quando decidimos liderar.

CRCPR Online: Na sua opinião, o que falta para a mulher se interessar mais pela participação na política?

NAP: Essa é uma questão complexa. Apoio da família, autoconfiança, disposição para enfrentar o jogo político, do qual faz parte, infelizmente, a prática de atacar a reputação dos oponentes para obter votos. Que mulher está preparada para que seus filhos sejam expostos, por exemplo, a mentiras sobre a sua vida? Mas se os homens conseguem, nós também temos que conseguir.

Participo do Grupo Mulheres do Brasil, fundado por um grupo de líderes comandado pela empresária Luiza Helena Trajano. Ele é apartidário, composto por mulheres de todo o País que se reúnem mensalmente para discutir e propor ações afirmativas sobre temas ligados a educação, empreendedorismo, participação na política e projetos sociais. Como líder da Causa de Políticas Públicas para as Mulheres no Paraná, que tem a missão de fomentar a participação da mulher na vida política, tenho tido contato com muitas mulheres que, ao serem convidadas para concorrer a cargos eletivos, recusam, porque não querem envolver suas biografias com “isso”, pois associam a política às negociatas, à corrupção. Mas precisamos de gente disposta a mudar “isso”, se queremos que o nosso País mude. O problema é que as que aceitam, muitas vezes se deparam com situações como lideranças partidárias que as recrutam apenas para cumprir as cotas exigidas por lei, que não direcionam as verbas a que elas têm direito como candidatas, alegando que como elas não têm chance, o partido prefere investir nas candidaturas mais conhecidas, com a promessa de que “na próxima eleição elas receberão recursos, pois já serão mais conhecidas”. Na hora da prestação de contas, é frequente que elas sejam, inclusive, obrigadas a declarar que receberam as verbas que, na verdade, foram utilizadas por outros candidatos do sexo masculino. Por tudo isso, creio que é preciso primeiro ajudar as mulheres a se prepararem, para despois investir em ações para apoiá-las. É claro que não dá para simplesmente separar cada etapa em uma caixinha. As coisas vão acontecendo simultaneamente. Mas precisamos fazer essa divisão a fim de planejarmos melhor as ações e otimizar a aplicação de recursos por parte da comissão nacional e das estaduais.

CRCPR Online: A pauta da afirmação da mulher no mercado de trabalho e na sociedade é extensa e certamente voltaremos a este assunto pontuando temas específicos. Mas neste momento, que mensagem gostaria de deixar para a mulher contabilista paranaense e brasileira?

NAP: Para a mulher contabilista, quero dizer que vejo, sim, o aumento do número de mulheres nas entidades, mas muitos nomes aparecem apenas como suplentes, não estão realmente colocando a mão na massa. Quero ver vocês como conselheiras efetivas, com cargos executivos nas entidades, fazendo a diferença, liderando. Para as mulheres em geral, é fato que já conquistamos muito em vista da situação em que vivíamos, por exemplo, no início do Século XX, mas não podemos nos contentar. Não podemos nos acomodar e esperar que as coisas mudem. Nós, mulheres, temos a capacidade de sermos o que quisermos e não podemos mais permitir que nos façam crer no contrário. Representamos metade da humanidade, mas não queremos simplesmente dividir o mundo, os recursos, o poder, ao meio. O que queremos é somar, multiplicar, fazer mais e melhor em benefício de todos.

 

Fonte: CRCPR